ACESA Associação Comunitária de Educação em Saúde e Agricultura . Brasil

Acesa Girau do Mearim - Maranhão

PROJETO PRESERVA E RESGATA SEMENTES CRIOULAS NO MARANHÃO

06/10/2021

Apoiada pelo Programa de Pequenos Projetos da CESE, ONG ACESA fortalece autonomia e soberania alimentar de famílias por meio da reprodução de sementes crioulas

A riqueza cultural e ancestral preservada nas sementes. É esse o significado das sementes crioulas para agricultores e agricultoras do Maranhão, que ao valorizarem e preservarem essa também conservam os saberes de seus antepassados. Apoiada pelo Programa de Pequenos Projetos da CESE, a ONG Associação Comunitária de Educação em Saúde e Agricultura promove uma série de atividades de implantação das sementes, consideradas em extinção, bem como a seleção, tratamento e armazenamento, além de atividades formativas como oficinas, encontros e assessoria técnica até dezembro de 2021.

De acordo com Raimundo Alves da Silva, coordenador executivo da ACESA, a semente crioula representa uma herança de sabedoria. “Elas trazem em si uma riqueza muito grande e uma relação com nossos antepassados. Eles sabiam quais sementes eram as mais propícias para aquele espaço, para o clima. Por isso que para nós, quando alguém guarda a semente dentro de um processo de preservação, manutenção e valorização, essa pessoa se torna uma guardiã da semente. Porque ela guarda todo um saber, que envolve o cultivo com a terra, com o clima e com os outros elementos da natureza” revela o gestor.

 

E esse é o principal motivo pelo qual o projeto fomenta que as pessoas em formação se tornem guardiãs dessas sementes. Além de ter uma relação direta com a terra, com os cuidados e respeito às dinâmicas de cultivo do território, ser guardiã da semente tem relação direta com a manutenção de um conhecimento, transmitido de geração a geração, numa relação familiar e ancestral.

“Nós defendemos muito, aqui na cidade, que cada família possa ter o seu banco familiar de sementes. Que cada família tenha o interesse de desenvolver uma relação no contexto da produção, garantindo a preservação das sementes crioulas, mas acima de tudo garantindo uma preservação da biodiversidade, o que garante produtividade e qualidade no processo produtivo, no respeito às culturas locais” conta Raimundo.

Essas práticas permitem ampliar as condições de geração de renda, possibilitando que as agricultoras e os agricultores tenham soberania no processo de escolha do que produzir. A iniciativa da ACESA resgata os saberes que existem como tecnologias ancestrais, pouco valorizadas pelas práticas do grande agronegócio, que muitas vezes compromete a biodiversidade.

Guardiãs das Sementes – A preservação desse saber cultural, ancestral da autonomia e soberania alimentar e na relação com a terra está nas mãos das mulheres. Segundo Alves, “são elas as principais guardiãs, que tem esse cuidado de guardar, partilhar as sementes. Nós, da ACESA, temos envolvido a juventude nesse processo. Porque se a gente está falando de transmissão que vai de geração a geração, é importante que essa nova turma esteja assumindo essa responsabilidade de fazer a discussão sobre a importância da manutenção e da garantia da semente crioula para a posterioridade”.

 

O projeto também promove o registro das sementes, suas histórias, com foco em sua reprodução, além de identificar sócios para gerar produção em unidades familiares, com acompanhamento técnico e pedagógico. E é nesse sentido que são buscadas as guardiãs das sementes, pessoas dedicadas ao seu cuidado e continuidade. Desde 2014, a organização estimula a troca das sementes, levantando o que e quanto cada família dispõe e a partilha das sementes veio se dando nos espaços formativos, a exemplo do Fórum de Agricultoras e Agricultoras Familiares.

Nas formações, entram em discussão a produção agroecológica, a segurança alimentar e o resgate dos saberes sobre as sementes crioulas. O projeto atual é mais uma etapa dessa caminhada já em curso há alguns anos. Mas nem tudo é simples: as sementes crioulas trazem alguns desafios na manutenção e trato.

“Algumas sementes foram se perdendo, como é o caso do coentro, a semente da alface e sementes de algumas de algumas frutas, que tínhamos na região. O projeto vem nessa perspectiva de fazer um processo de formação, a partir do levantamento daquilo que se tem resgatado. Aquilo que, por um tempo foi se perdendo. Para que as famílias entendam dessa importância de ter na sua casa um espaço para manutenção e valorização dessas sementes, pensando na segurança alimentar, na produção agroecológica de agora. E pensando na produção de outras de outras gerações” explica o coordenador.

O projeto vai garantir a aquisição das sementes que não são mais existentes na região, buscando em outros territórios do Maranhão, num trabalho de resgate e futuramente a criação de um banco de sementes na ACESA, servindo para demonstração em processos formativos futuros.

“Todas essas etapas vão se dando de forma muito conjunta, dentro de um processo de formação, que só gera bons resultados porque todas as pessoas participam ativamente” acrescenta Alves. A parceria com a CESE fortalece esses entendimentos: “Esse projeto com a CESE possibilitará a promoção de um resgate de um saber que precisa continuar. Esse processo vai se dar pelas famílias, acompanhadas pela ACESA, numa perspectiva de garantir autonomia, soberania alimentar e proteção de sua biodiversidade através desse processo de partilha e multiplicação das sementes, histórias, valores das pessoas que já passaram por aqui, pelas que estão e aquelas que virão. A gente pensa que isso vai contribuir para assegurar a manutenção das sementes crioulas, para todo o processo organizativo das famílias no cuidado. E por fim, uma técnica indispensável para o bem viver” conclui.

Fonte: https://www.cese.org.br/projeto-preserva-e-resgata-as-sementes-crioulas-no-maranhao/


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