ACESA Associação Comunitária de Educação em Saúde e Agricultura . Brasil

Acesa Girau do Mearim - Maranhão

Violência contra a mulher camponesa ocorre dentro e fora de casa, diz diagnóstico

25/01/2021

Violência dentro e foram de casa. Esta é a situação vivenciada por mulheres rurais no Maranhão. De um lado, a violência doméstica, que muitas vezes é silenciada pelo medo. Do outro, as ameaças de fazendeiros e empresas que as impedem de obter os recursos naturais para a sua sobrevivência. Isso tudo ocorre em um ambiente onde não existem delegacias especializadas para atendimentos a elas, o que leva ao medo e desestímulo para denunciar.

Diagnostico violência ACESA e RAMA
Esta é a conclusão do Diagnóstico da Violência sofrida por Mulheres Rurais no Maranhão, produzido pela Associação Comunitária de Educação em Saúde e Agricultura (Acesa) e a Rede de Agroecologia do Maranhão (Rama) e o GT de mulheres da Rama. A elaboração do diagnóstico contou com o apoio do Fundo de Ações Urgentes da América Latina e Caribe e faz parte da campanha “Com violência doméstica não há agroecologia”, desenvolvido pela Acesa e Rama e GT de Mulheres da Rama.


O documento foi apresentado no dia 15 de dezembro durante encontro virtual a um grupo cerca de 50 mulheres representando movimentos sociais, associações como a ANA e instituições públicas como o Ministério Público Estadual, Casa da Mulher Brasileira e Patrulha Lei Maria da Penha da Polícia Militar.

De acordo com o diagnóstico, as violências psicológicas e moral e a territorial estão entre os principais tipos de situações relatadas pelas mulheres rurais entrevistadas. O que não significa dizer que a violência física seja menor. “As violências que atingem as mulheres rurais maranhenses ocorrem por elas sofrerem historicamente com a desigualdade social que permeia o campo”, diz a pesquisadora, Aline Nascimento. Outra constatação é que as situações de violências vivenciadas pelas mulheres são ocultadas pelo medo, a vergonha e o isolamento, o que recai no silêncio, pois ocorrem sob o sigilo e privacidade do lar.

A pesquisa foi feita por amostragem e envolveu uma série de reuniões, debates e entrevistas. Ao todo, foram entrevistadas 231 mulheres com idade acima de 13 anos em diversas comunidades de 14 municípios maranhenses.

Durant as entrevistas, foi verificado ainda que diversas situações de violências não são reconhecidas por elas como tal, principalmente por aquelas que não estão engajadas em nenhuma organização social e não participam de reuniões e espaços de discussão sobre a temática, o que permitiria o acesso à informação. Tal percepção ocorre da interpretação por elas de que a violência é somente aquela causada por lesões externas/agressões físicas, conforme explica Aline Santos.

Presente ao evento, a promotora do Promotora Selma Regina Martins, do Núcleo da Mulher do Ministério Público do Maranhão, elogiou o trabalho de pesquisa e destacou que as situações de violências domésticas enfrentadas pelas mulheres do campo são as mesmas das mulheres da capital.

“Em que pesa tenhamos uma estrutura melhor do que no campo, são os mesmos problemas. A gente só consegue avançar em rede”, disse. Ao falar das dificuldades no campo para denúncias e apoio institucional, bem como a falta de delegacias especializadas, a promotora destacou que, a partir do período pandêmico, passou a ser possível fazer o registro da denúncia via on line. “Quem tiver acesso a um computador ou um celular, é possível fazer o registro on line. O Tribunal de Justiça do Maranhão também está estudando a Medida Protetiva on line. A mulher, se tiver acesso à internet, ela poderá fazer o pedido de Medida Protetiva”, diz a promotora.

Cidvânia Andrade de Oliveira, representante da Rama, alerta que os casos de violência contra as mulheres ainda são subnotificados por falta de uma rede de proteção nos municípios. “Infelizmente as mulheres nem se sentem à vontade para chegar numa delegacia e fazer estes registros. Por isso, estamos promovendo estas discussões e trazendo o diagnóstico que faz parte de uma campanha de combate à violência contra a mulher”, afirma.

De acordo com Ariana Gomes, representante da Rama, a iniciativa da campanha surgiu a partir do processo de aumento do número de casos contra as mulheres. Além do diagnóstico, a Acesa e a Rama, junto com o GT de Mulheres, tem desenvolvido outros processos dentro da campanha “Com violência doméstica não há agroecologia”, partindo do princípio de que não há como produzir alimentos saudáveis quando se tem os corpos das mulheres sendo violentados e explorados de alguma forma. “Neste processo, temos buscando também promover diversas atividades como rodas de terapia comunitária integrativa, pensando no autocuidado das mulheres, e buscando criar uma rede de proteção e cuidado a estas mulheres vítimas de violência”, explica Ariana Gomes.

Por Fanci Monteles e Yndara Vasques – Inspirar


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